quinta-feira, 19 de julho de 2012

Gusmo e Romão

Gusmo e Romão teimavam, vaidosos.
Romão contrariava, em gesto:
-Onde vais com esse quadro, tão branco?
- Vou sentir cada traço, vivê-los,
Em mar de cores naufraguei.
- Não verás no entanto a arte.
- A vida é um spa e sala de terapias;
Onde estão as cores da infância?
Resta-me um vazio em moldura!
- Gusmo, amigo, cacos pelo mundo!
A arte é espalhada, inalcançável.
Madrugada e conclusão das vidas!
- E a felicidade? Fim em si?
Alvo colorido, arco querido?
- A felicidade, Gusmo, é trajetória.
Resumo de viver como quem não chora.
- As cores estavam lá, doutor –
Gusmo a olhar, próprio, para si.
Romão desaprovava a consulta interna:
- A felicidade é o caminho, a morte é o fim!
- Terapeuta e paciente, buscamos juntos,
Cegos, as cores no quadro do spa.
A pergunta, a resposta, a prescrição:
Perda de tempo inadiável?
Num abraço, sentiram-se sem chorar:
Gusmo e Romão quadro por pintar?
Amizade mil vezes lapidada?
- Romão, aquele é o quadro de outrora!
- Acredita, pois, na arte e, sem ter fim,
Vê as cores paradas no quadro:
O branco guarda a toda infância!