quinta-feira, 19 de julho de 2012

Gusmo e Romão

Gusmo e Romão teimavam, vaidosos.
Romão contrariava, em gesto:
-Onde vais com esse quadro, tão branco?
- Vou sentir cada traço, vivê-los,
Em mar de cores naufraguei.
- Não verás no entanto a arte.
- A vida é um spa e sala de terapias;
Onde estão as cores da infância?
Resta-me um vazio em moldura!
- Gusmo, amigo, cacos pelo mundo!
A arte é espalhada, inalcançável.
Madrugada e conclusão das vidas!
- E a felicidade? Fim em si?
Alvo colorido, arco querido?
- A felicidade, Gusmo, é trajetória.
Resumo de viver como quem não chora.
- As cores estavam lá, doutor –
Gusmo a olhar, próprio, para si.
Romão desaprovava a consulta interna:
- A felicidade é o caminho, a morte é o fim!
- Terapeuta e paciente, buscamos juntos,
Cegos, as cores no quadro do spa.
A pergunta, a resposta, a prescrição:
Perda de tempo inadiável?
Num abraço, sentiram-se sem chorar:
Gusmo e Romão quadro por pintar?
Amizade mil vezes lapidada?
- Romão, aquele é o quadro de outrora!
- Acredita, pois, na arte e, sem ter fim,
Vê as cores paradas no quadro:
O branco guarda a toda infância!

sábado, 21 de abril de 2012

No Parque da Águia


Quem desenhou e pôs moldura
Foram raios ultraquentes,
Ao norte dos padrões de vida.
O Sol no parque a oeste de mim
E nas margens do Charles,
Onde ouvi várias línguas
Querendo união no mundo.
Quando quase caí dos patins,
Veículos das tais mensagens
Na interface do chão.
Desenhei um corrimão no ar,
Semifugitivo, turista.
Uma águia dava as regras,
No alcance opaco da vista,
Voando em giros abstrata,
Presa em sua própria liberdade.
No que eu assentia, ator,
Pois a segunda intenção do chão
É uma queda e um abraço.
Vi retrato sem endereço
Quando ouvi, junto aos povos,
Sonhando com algo no além-Sol
Que iria vir e quebrar esse gelo.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O Paradoxo de Angelicastro

Muito que amigos preservava
Anjo de nome, homem casto
Um poço fundo de gentilezas.
Engenhoso delineia a cidade
E na destreza dos cálculos,
Teórico da fraternamizade.
Na prática: solitário apressado;
Pois dos amigos a conversa
O tempo em compasso degrada
E o juízo alheio o moldava
A si, contra seu bel-prazer.
A coletividade mal o tratava
Amor virava, pois, em raiva,
Mas quando distante, serenava.
Precisava, perdoe, se retirar
E nesse equilíbrio vivia
Como num passe de dança.
Ouvia por cima e breve
Para amar profundo e sempre.